Ana Hortides
INDISCIPLINAR Armazém Macedo, PR (2024-2025)
Indisciplinar é uma ação de transgressão, ou ainda, é uma reação. A exposição é consequência (ou talvez persistência) de uma pesquisa inacabada sobre as relações mais ou menos conflituosas entre o processo de disciplinarização e a transgressão das disciplinas de arte e arquitetura. É uma busca por indisciplinados, seres errantes, artistas-arquitetos e arquitetos-artistas que questionam e rompem com os limites da organização moderna do saber, abrindo uma fenda no campo, uma abertura que desestrutura, traumatiza, mas não o rui. Making the right cut somewhere between the supports and collapse, diz Gordon Matta-Clark.
Os quatro artistas, Ana Hortides (RJ), Érica Storer (PR), Fernando Moletta (PR) e Marília Scarabello (SP), a partir de seus repertórios e operações particulares, colocam em questão a construção do espaço arquitetônico urbano e/ou doméstico, e não só. Provocam novas construções, são artistas que constroem, pensam e articulam o espaço com gesto arquitetônico, ou arquitetos que preferem não construir, pensam e desarticulam o espaço com o gesto artístico. Os encontros, também chamados de contaminações, interlocuções ou campo expandido, entre arte e arquitetura não são inéditos no debate contemporâneo. Contudo, nessa recorte in-disciplinar, há uma provocação menos conciliadora e mais transgressora.
Ana Hortides é, nas suas próprias palavras, uma artista-pedreira. Seus processos colocam em evidência as relações entre casa e domesticação. Ela trabalha explorando os conceitos do íntimo e do habitar como processos de construção da figura e da representatividade da mulher, do trabalho e das ferramentas da mulher e da potência política do doméstico. Nas suas obras há quase sempre uma dualidade entre o peso e a leveza, o trabalho concreto das peças com caquinhos e a fugacidade da palavra.
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Bem, Indisciplinar é um desejo. É a busca por uma certa potencialidade de revolução epistêmica no gesto de ruptura de artistas e arquitetos com o próprio campo disciplinar. Veja, por exemplo, os cortes de Matta-Clark. Eles não só conectam a arte à arquitetura, mas também desestruturam, literalmente e semanticamente, a arquitetura. A fenda ressalta o caráter destrutivo do processo de transformação urbana nos Estados Unidos e questiona o papel do arquiteto como planejador desse processo. Há um conflito com a própria definição da disciplina da arquitetura, o arquiteto da arché, da origem, aquele que começa e comanda. Os gestos indisciplinados de Ana Hortides, Marília Scarabello, Érica Storer e Fernando Moletta, assim como a fenda de Matta-Clark, escancaram partes, separam e, ao mesmo tempo, reaproximam o distanciado. Para o pesquisador de Jacques Derrida, Moysés Pinto Neto, a transgressão disciplinar provoca mais que o encontro entre as disciplinas. É “um rompimento que instaura um vazio no saber específico para hospedar o Outro que traumatiza e rompe a ordem”, é alteridade absoluta, a desconstrução da disciplina.
Bem, e como desconstrução, a indisciplina inaugura um processo de abertura para um novo horizonte de experimentações, o porvir, uma revolução material. No atual contexto da arte contemporânea brasileira, onde as fronteiras institucionais e os espaços tradicionais são constantemente tensionados, essa revolução material ressoa com particular urgência. Os gestos indisciplinares aqui reunidos dialogam com uma geração que tem repensado as formas de ocupação e intervenção nos espaços, questionando não apenas os limites disciplinares, mas as próprias estruturas que os sustentam.
Indisciplinar é também um manifesto coletivo. O projeto iniciou com uma série de entrevistas, a partir das quais foi possível conhecer e reconhecer os discursos que apoiam as operações realizadas pelos artistas. Pouco a pouco fomos estabelecendo um diálogo lento. Indisciplinar ganhou formas a partir desses encontros e desencontros.
Por fim, Indisciplinar é um convite. Um convite à ação, um convite à transgressão, e justamente por isso tem múltiplas formas: uma exposição itinerante, uma exposição online e múltiplas ações de tentativa de esgotamento desses espaços. São ferramentas, ferramentas para indisciplinar.
[1] Em O que significa pensar a transdisciplinaridade? Publicado na revista TRAMA INTERDISCIPLINAR - Ano 1 - Volume 1 em 2010.
A exposição itinerou pelos espaços:
Acervo Municipal de Obras de Arte, Ponta Grossa; Centro de Artes Iracema Trinco Ribeiro, Guarapuava; Museu Municipal de Arte de Curitiba (MuMA), Curitiba; Armazém Macedo, Antonina, todos no Paraná.
Thaylini Luz
curadora



