Ana Hortides
Paisagens Pra lá e Pra cá - Ana Hortides e Anna Bella Geiger
ArPa, SP (2026)
A paisagem é o resultado de uma acumulação de tempos.
Milton Santos
Entre as obras de Anna Bella Geiger e Ana Hortides cruzam-se tempos variáveis da arte, arquitetura e geografia. A paisagem construída na conversa entre suas poéticas vai dos subúrbios cariocas às montanhas chinesas, discutindo problemas do modernismo e da modernidade, interrogando relações de poder e de saber que produzem espaços, imagens e objetos.
Quase sessenta anos separam o nascimento das duas artistas. Ana Hortides (Rio de Janeiro, 1989) foi aluna e assistente de Anna Bella Geiger (Rio de Janeiro, 1933), e talvez tenha surgido dessa relação a proximidade em seus modos de criar. Em ambas as artistas, os títulos funcionam como operadores poético-políticos. Neles, expressões como Local da ação ou Caquinhos aparecem como procedimentos de montagem, fragmentação e transferência de técnicas, materiais e significados.
Anna Bella considera seus mapas como paisagens e entende que o tema surge no trabalho de Ana Hortides com a vivência carioca. Por sua vez, Ana explica que problemas do espaço e do deslocamento - presentes no trabalho da professora - reaparecem em suas obras permeados pela experiência da casa, da matéria e da cultura construtiva popular brasileira.
A paisagem é móvel, está em constante transformação, acompanhando mudanças sociais, políticas e econômicas, podendo ser tanto instrumento e reflexo de legitimação de exclusões quanto campo de material para a construção de visibilidades a grupos subalternizados. As imagens-rotas-mapas de Anna Bella Geiger e os objetos-casa-construção de Ana Hortides, quando articulados, produzem uma situação crítica em relação às paisagens contemporâneas.
A conversa entre as artistas cria passagens entre geografias macro e micropolíticas, em situações espaciais viajantes. De Ana Hortides incorporam pensamentos sobre raio que o parta e o modernismo popular, To and fro (Pra lá e pra cá), trazendo movimento espacial e conceitual às obras. Anna Bella Geiger traz seu Rrolo, que nada tem de compressor, sendo uma abertura para a reflexão sobre a política dos espaços em sentidos históricos, adensado com sua rota da seda.
Os tempos se acumulam nas práticas artísticas em processos de aprendizado e educação. Anna Bella Geiger aprendeu a pensar o espaço ainda adolescente, no ateliê da professora Fayga Ostrower. Esse conhecimento, traduzido inicialmente em gravuras abstratas, desdobrou-se em pensamentos geopolíticos. Ana Hortides, doutora pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, tomou a casa própria, em sentidos estético, político, econômico e social, como espaço de ação. As duas artistas articulam de maneira singular suas poéticas, em conversas não lineares, porém, impulsionadoras de uma criação artística comprometida com a crítica da atualidade.
[1] SANTOS, Milton. Pensando o espaço do homem. São Paulo: Edusp, 2007. p. 54.
[2] McDOWELL, Linda; SHARP, Joanne P. A feminist glossary of human geography. London/New York: Routledge, 2014. p. 148.
Gabriela De Laurentiis
curadora

